sábado, 30 de agosto de 2008

em tempos de chuva

O oficial de justiça tenta se matar. Hoje faz 14 anos e ele não consegue mais, simplesmente, não consegue mais viver com a culpa de tudo. A esposa vai chorar, provavelmente, pois acreditava que tudo ia ficar bem, que a indisposição ia passar, que com o tempo acabaria passando. Mas não, absolutamente.
O oficial de justiça compra os remédios e a corda, a verdade é que não consegue se decidir. Não sabe qual modo seria menos pior para aqueles que o encontrassem. Escolher a roupa foi mais fácil, vestiu seu uniforme, um dos responsáveis. Penteia os cabelos, corta as unhas, quem não sabe o que se passa em sua cabeça, imagina que esse seja só mais um dia comum.
Os mais próximos vão se lembrar, mas ninguém ousa fazer nenhum comentário.
Ao cair da tarde, prepara a sala para sua empreitada, com tempo suficiente, pois a esposa foi visitar a mãe em outra cidade, e só volta no dia seguinte, quando tudo estará consumado.
O céu parece descobrir sua intenção, uma chuva começa, uma chuva como ele nunca viu, com trovões, relâmpagos e ventos ensurdecedores. A janela balança tanto, parece que vai ser jogada ao chão. O oficial de justiça suspira, e pensa em quão adequado é o cenário.
Senta no sofá, ainda não consegue se decidir, corda ou remédios? corda ou remédios? corda ou remédios? Remédios, uma pessoa pendurada não seria uma boa imagem.
Agora só falta a carta. Precisa de uma realmente? Ou essa parte do ritual pode ser dispensada? A esposa entenderia, ele nunca foi mesmo de tantas palavras.
Escolhe uma música, deita confortavelmente, fecha os olhos e espera. Espera o inesperável, espera o inevitável, espera o infinito.
Quanto a esposa abre a porta da casa, vê seu marido dormindo em paz, em cima da mesinha de centro a foto do filho. Não encontra nenhuma carta, ele nunca foi mesmo de palavras. Ela pega o telefone e liga para quem precisa ligar, senta-se ao seu lado e, com a cabeça no seu ombro, conta como foi seu dia.

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